sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Autonomia, processamento sensorial, coordenação motora e atenção.Muito além das sessões de terapia ocupacional.

As crianças aprendem nas atividades cotidianas, ajudando e tomando conta!
A atitude do adulto é muito importante nestes momentos. Incentivando o interesse e participação. Criando um ambiente rico de oportunidades.


Por Ana Elizabeth Prado
Crefito 3/1670 TO

Sempre falo às famílias que me procuram: o dia-a-dia é o mais valioso!

É onde se tece quem nós somos e o que podemos vir a ser.

Experimentando, descobrindo, malhando músculos, sensações, sentimentos e vínculos.

O que posso fazer sozinho? Em que preciso de ajuda? Quando é bom estar em grupo? O que a criança aprende sobre si mesmo e o mundo quando participa das atividades da vida diária?

São muitas situações cotidianas onde estão inseridas em um tempo e lugar. Um corpo/sujeito se formando em relação, no contexto, junto a outros corpos, outras pessoas, diversas preferências e modos, de sentir e fazer.

Com a criança que precisa de um atendimento especial  não é diferente. Por mais que na terapia haja recursos primorosos faltará uma parte do caminho da autonomia, se não forem validadas e estruturadas as ações de forma independente no cotidiano. É claro que deve ser considerado as possibilidades de cada um e o nível a ser atingido.

É lá, no dia-a-dia, naquele momento em que a criança se dá conta das necessidades, do prazer, do que precisa para a regular os movimentos, da sensação, por ex. de como ajustar os dedos das mãos para calçar uma meia, da atenção que precisa para vestir uma camiseta do lado correto, do volume do alimento em que pega com a colher, da precisão de movimentos para colocar a pasta na escova de dentes, do tempo de durar a refeição, da sensação em ensaboar-se. Estas ações acontecem devido a um bom processamento sensorial.

Estão lá: as noções de tempo, forma, peso, volume, textura, temperatura, cheiro, sabor, movimento, força, ajustes posturais, coordenação, atenção e mais os tantos pequenos "problemas" que precisamos resolver para grandes aprendizagens da vida, apropriar-se dos auto cuidados.

Antes de chegar a fase de se tornarem automáticas tais ações passam por bons momentos de ensaio-erro, conforto e desconforto,  podendo chegar a ensaios de empoderamento de si. Sem mais, nem menos, tudo de acordo com o nível de desenvolvimento.

Sim, quanto mais a criança descobre e vivencia a independência a seu tempo ela exercita tudo que precisa para sua autonomia. Contando, inclusive, com as questões específicas que por algum motivo estejam em defasagem como a coordenação motora, a atenção, o processamento das sensações, a organização do tempo de fazer as ações cotidianas.

Acreditem. Na rotina diária a coordenação motora fina  é muito mais exercitada do que numa sessão de terapia. Não é raro receber crianças com atraso na escrita que não calçam as suas meias ou que nunca descascou uma fruta com as próprias mãos.

Portanto, além da sessão de terapia:

-CELEBRE  AS CONQUISTAS
 favoreça momentos em que seu filho(a) tente fazer o que é esperado para idade dele nos momentos de: alimentação, vestuário, higiene, dormir, acordar, cuidar de seus pertences e do ambiente em que vive, se locomover, brincar, interagir com o grupo

-ADAPTE
... e se ele não puder fazer sozinho, busque um jeito de auxiliá-lo, sem fazer por ele. Converse com um terapeuta ocupacional se seu filho precisa de adaptações para conseguir realizar de forma independente possível.

- O ERRO TAMBÉM É UM PASSO
 não o poupe de errar, dentro das medidas de segurança cabíveis.

- NÃO SUBESTIME
 valorize o cotidiano como um contínuo aprendizado

- PARA QUEM?
se você é terapeuta sempre converse com a família sobre como pode ajudá-la para transpor os objetivos da terapia para o cotidiano. Os objetivos não devem estar limitados ao programa terapêutico, mas devem ser para melhorar a vida da criança e da família.

                                                                 
                                                                                   Se precisar, ajude.
Pequenas responsabilidades criam repertório para a vida
          
Achei este post que vem de encontro ao que estou colocando agora em evidência.
Siga o link Diirce - filho ajudando em casa, por faixa etária




quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Brincadeiras proprioceptivas agrupadas em 10 ítens


Por Ana Elizabeth Prado
Crefito 3/1670 TO

Brincar sentindo o corpo!



Novidade?
       
Não deveria ser.

Nos tempos atuais precisamos estar atentos e valorizar os ricos momentos de estar conectados aos sentidos do corpo. Cada vez mais pessoas estão conectadas às máquinas. Nada contra a tecnologia. Mas vale lembrar que é o corpo que se conecta para a adaptabilidade do modo de vida contemporâneo... utilizando a máquina quando precisa para viver melhor.

Que este corpo esteja bem para viver bem!

O primeiro passo é valorizar a importância dos sentidos em nossa vida. Eles são a base do desenvolvimento e aprendizagem. Os primeiros movimentos, a pausa, os ajustes, das partes e do todo, o tônus sendo alimentado pelas sensações em via de mão dupla...aliás, múltipla. Diversos sentidos se retroalimentando para formar o substrato do conhecimento do que somos formados. Como o tônus pode se regular, como o movimento pode ser graduado, dirigido e refinado. Como as informações sensoriais podem influenciar o estado de alerta e atenção. Todos estes aspectos são contemplados por um bom funcionamento do sistema proprioceptivo integrado aos outros sistemas sensoriais, principalmente o tátil e vestibular.
Saiba mais sobre propriocepção

Por isso é tão importante propiciar oportunidades que a criança brinque nos diferentes planos, com intensidades e direções de movimentos, em situações para diferentes ajustes de tônus e percepção do corpo para conhecimento de si e em conexão com o coletivo. Isto irá ajudar a criança  nos diferentes contextos nas habilidades psicomotoras, pedagógicas e sociais.

Por ora vou elencar algumas brincadeiras que têm forte incentivo à propriocepção, mas deve ser considerado que não há  brincadeira que isole um só sentido. Algumas são mais evidentes de propriocepção e tátil, outras propriocepção e vestibular. Vamos considerar que o processo de Integração Sensorial é dinâmico e multissensorial.
Coloco também links de outras postagens relacionadas ao tema.

Aviso aos brincantes: a criança precisa estar envolvida e gostar da brincadeira!!!

1- "Sanduiche" de gente - envolva a criança com almofadas, cobertor ou como no caso desta foto um grande almofadão cheio de bichos de pelúcia macios e/ou almofadas.
Que seja macio, preciso e dê um sentido de continuidade do território corporal.
Que seja lúdico: a criança é o recheio e você irá passar a maionese no cachorro quente, ou o requeijão no pão. Amasse, faça toque com pressão profunda contínua, mexa e remexa. Eles adoram!
Provoque respostas da criança como sair se movimentando, querer ficar quieto, pedir mais.
Esta brincadeira estimula no mínimo o sistema tátil e proprioceptivo a depender da intensidade e  movimento.




Há crianças que precisam de muito estímulo para sentir o corpo e entrar no estado de autorregulação por meio de estímulos proprioceptivos e táteis. Nestas situações deve se ter critérios a depender do Perfil Sensorial e ser supervisionado por um adulto para a segurança da criança. Consulte um especialista em Integração Sensorial para saber mais.




2- Esticar o corpo. Use tecidos elásticos para oferecer resistência e provocar situações diferentes de amplitude e intensidade de  movimento nas articulações. Incentive o espreguiçar. Sempre!


 Mais uma ideia de brincadeira

A seguir brincadeiras para estimular as diferentes formas de contato entre as articulações e uso das cadeias musculares vivenciando os graus de regulação de tônus, manejo do corpo no espaço e tempo, de forma lúdica. Além de estimular a propriocepção estas brincadeiras podem regular o estado de alerta e atenção. Vale a pena ser experimentado também no ambiente escolar.

3- Pular - em superfícies diferentes: seja no chão, na cama elástica, no colchão, na bola, na brincadeira de corda. Pular amarelinha. Corrida de saco.






4-Subir e pendurar-se - em árvores, em brinquedos de parque, no trapézio, em cordas. 







5-Carregar - mochila, objetos pesados de acordo com a possibilidade da criança, no contexto.



6- Empurrar o corpo contra superfícies e com outros corpos.



7- Puxar objetos, brincar de cabo de guerra, puxar água com rodo



Ainda há brincadeiras que colocam em evidência determinadas regiões do corpo com os objetivos semelhantes citados acima.

8- Brincar com os pés. Além das brincadeiras de pular incentive a sentir o contato dos pés com diversos materiais como bambu, sementes, massinha. Faça caminhos sensoriais com brincadeiras de imaginação. Brinque com o equilíbrio, peso, direção e amplitude diferentes dos membros.

Mais sugestões de brincadeiras


  







9- Brincar com as mãos - além das citadas anteriormente de carregar, empurrar, puxar, pendurar e subir há aquelas em que há descarga de peso ou os membros superiores como suporte do corpo para ação e aquelas para atenção para o uso das mãos refinando a coordenação e dissociação .


Jogos com peteca, jogo de raquete, pingpong


  

Atividades artísticas como argila, impressão das mãos, apertar tubo de cola e tinta.


A antiga e tão necessária: "Cama de gato". Dica de livro - passo a passo

10- Brincar com a boca -  estalar a língua, chupar uma fruta, sugar um canudo de voltas, soprar, mastigar alimentos sólidos e brinquedos orais com pressão intra e extra oral. Uso de vibradores orais.

  

Ao terminar de escrever esta postagem fico com uma sensação que muitas brincadeiras de tempos atrás estão caindo no esquecimento. Ao mesmo tempo constato nos atendimentos que muitas crianças estão precisando estruturar melhor o sentido do corpo.
Será que há relação com a mudança de hábitos dos tempos atuais?
Que tipo de brincadeiras estamos incentivando às crianças?

Leia também - Os sentidos do corpo e significados

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Uma experiência de Arte, Terapia Ocupacional e Integração Sensorial

Por Ana Elizabeth Prado
Crefito 3/1670 TO

Na descoberta da integração dos sentidos a arte valida a passagem do corpo para o mundo.

Criado por L. 7 anos

Luan* chegou a mim para a intervenção de Integração Sensorial. Era um menino franzino, inteligente e com queixas da escola de dispersão e inabilidade motora.  A família não sabia como lidar com o seu comportamento "irreverente" e com o modo diferente de se comunicar. Estas queixas me levaram a entender esses sinais como indicativos de problemas de processamento sensorial.

Construímos juntos um programa onde Luan foi descobrindo seu corpo, as sensações da interação dele com o mundo e vivenciando novos caminhos de possibilidades. Regulando o corpo no tempo e espaço...integrando sensação, movimento, emoção e cognição.


Pendurando nos cipós do Tarzan, girando, pulando, brincando de sustentar seu corpo parado e em movimento, inventando brincadeiras, planejando e vivendo a conversa da imaginação com a realidade, própria do universo infantil.

Aos poucos Luan foi ficando auto confiante dando passagem para as etapas de seu desenvolvimento. Entre as atividades do programa de Integração Sensorial abrimos espaço para as auto expressivas como modelagem, colagem e pintura. Prosseguimos então a explorar os sentidos por outras formas, junto à coordenação motora, a elaboração das emoções, a atenção e por que não a arte.

Luan revelou sua habilidade em criar e um maravilhoso potencial estético. Talvez o lugar de estruturação que conseguimos chegar possibilitou a Luan se ver de outras maneiras  que não aquelas de menino "estabanado e desatento". Mas sim, brincalhão e criativo. 

A felicidade tomou conta de Luan. E ele foi embora para o mundo... deixando a sua presença em meu caminho de terapeuta ocupacional.

*Luan é nome fictício.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Afinal, o que a Terapia Ocupacional faz?


Por Ana Elizabeth Prado
Crefito 3/160 TO

A configuração em rede do nosso potencial de ser vivo se faz naturalmente quando não há impeditivos... 

Terapia Ocupacional - tecendo a vida

Mas, se houver, nós ajudamos a refazer a rede contando pelo que se é e o que virá a ser!



Há um tempo atrás fui convidada para escrever sobre Terapia Ocupacional e os benefícios na qualidade de vida às pessoas com Doença de Crohn.

Aproveito a oportunidade e coloco a minha visão de como a "TO" é tão global e está inserida na vida das pessoas. Será este o motivo que tanta gente não sabe o que a TO faz? Realmente é difícil colocar os benefícios numa caixinha, pois quando a gente tenta sempre há algo mais.

O diagnóstico é uma parte de uma história enorme que envolve passado, presente e futuro com diversas pessoas e infinitas possibilidades de prosseguir a vida!

Portanto, faça o exercício de descondicionar a técnica ao diagnóstico, a tentação de olhar só a relação direta da causa a um efeito. Existem muitos caminhos a se fazer, a serem reaproveitados e por que não, criados!

Segue o link do que escrevi no site Sincrohnia

Conheça os benefícios da terapia ocupacional na Doença de Crohn

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Disfunção de Processamento sensorial no Transtorno do Espectro Autista

Ana Elizabeth Prado
Crefito 3/1670 TO

"Não há como escapar à fome da alegria!"

Ao ler o poema da Adélia Prado, " A menina e a fruta", esta frase ficou reverberando em mim. Não só como ensinamento de vida, mas principalmente  pela compreensão que atribuo ao comportamento de algumas crianças com quem convivo em meu dia-a-dia como terapeuta ocupacional.

A imagem-sensação foi se construindo pela lembrança cúmplice do corre-corre  sem destino e direção de algumas crianças, de seus gritos, choros ou o riso mal compreendido. Até mesmo o não poder olhar de frente para o outro, tipo olho-no-olho,  o balançar incessantemente das mãos ou o bater repetidamente em seu corpo e nos objetos. Aparentemente, atitudes sem função.

Todo comportamento tem um significado

O que fazemos quando não estamos no estado de equilíbrio ou fora de sintonia ? 


Do ponto de vista da teoria de Integração Sensorial há crianças com dificuldades em processar as várias informações sensoriais que acontecem o tempo todo no ambiente e em seu corpo. E uma parcela com Transtorno do Espectro Autista.

É comum adotarem comportamentos não reconhecidos socialmente devido a diversos motivos, tais como:

- necessidade de se proteger da sobrecarga de estímulos sensoriais. Pentear o cabelo ou alimentar-se pode se tornar uma situação aversiva.
- procura demasiada pelos estímulos  sensoriais para validar a percepção das informações.      Balançar-se pode alimentar a sensação do próprio corpo.
- inabilidade para integrar mais de uma informação sensorial. Olhar para o outro enquanto fala requer a habilidade de integrar várias informações.
- dificuldade no planejamento motor. A organização do corpo no tempo e espaço começa pelo ensaio do domínio corporal, que, no mínimo, é sensório-motor.
- dificuldade de organizar-se quando muda rotina ou o ambiente. Morder-se, bater e gritar pode ser uma forma de expressar a inabilidade de entender as mudanças do tempo e espaço.
-dificuldade em brincar e comunicar-se. O  desenvolvimento natural destas habilidades depende da autorregulação neurológica para incorporar a dimensão social.

A Terapia de Integração Sensorial começa pelo entendimento das necessidades e desejos da criança.
Compreendendo a causa pode se criar condições para aprender a lidar com a realidade em que vive.
Nesta abordagem terapêutica não queremos "consertar" nenhum comportamento. Queremos chegar a um ponto que tais comportamentos sejam minimizados em prol da ampliação de horizontes.
Que tais atitudes não sejam mais o foco, mas sim, o desenvolvimento das habilidades.
Criamos um ambiente onde a criança possa descobrir novos jeitos de relação com seu próprio corpo e o meio com brincadeiras sensoriais que, aos poucos, ajudam a maturidade neurológica. Durante o programa a criança irá conhecendo sobre ela, do que gosta, e do que é possível, inclusive transpondo para além da terapia. A família também passa a conhecer os recursos em que a criança pode usar na escola e em casa para melhorar o estado de presença nos diversos meios em que convive.



Retomando a frase da Adélia Prado eu diria que alguns comportamentos podem refletir a fome ou a falta de algo, e que, às vezes, podem ser as condições mínimas para brincar e comunicar... como a alegria!

Propiciar essas condições me faz ter a certeza que este tipo de terapia não é para condicionar, mas sim para descondicionar um padrão que foi estabelecido devido a alguma dificuldade.
Acreditando que o caminho é pela, para e a partir da própria criança.
Quer saber mais? Acesse outras postagens no blog

Segue abaixo o link referente a mais um estudo relacionando as dificuldades de pessoas com autismo na área de processamento sensorial. Alguns comportamentos sociais diferentes surgem daí.
Por isso é necessário uma avaliação de um terapeuta ocupacional especializado em Integração Sensorial para compor um programa adequado para cada criança.

Link do "Reab me" sobre o estudo das alterações no processamento sensorial no autismo

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Brincadeiras para simbolização. Materiais inusitados. Por que não?

"Mãos ao alto!"
Por Ana Elizabeth Prado
Crefito 3/1670 TO
Quando o imaginário da criança é ativado um arco-íris se faz!

Há momentos na vida da gente que vibramos lá dentro, e bem fora também... um brinde às escolhas!
Escolha em ser terapeuta, na confiança do vínculo, na abertura da criança ao novo... e nas incertezas do acaso do encontro... na brincadeira.
Um bom motivo para ser terapeuta ocupacional!!!

Havia ali um esqueleto e pela fresta da porta aquele menino falou: "caveira" em uma forma que de início não dava para entender. Mas insistentemente como quem queria um doce de festa ele não desistiu. Eu que nem imaginava que na idade dele seria interessante entrei na brincadeira... e a "caveira" entrou na nossa brincadeira.

O início - inspeção por todos os buracos e partes. Coisas que nem sempre podemos fazer em um ser vivo.


O recheio - de que somos feitos? Minuciosamente interessante...ossinhos, ossos grandes

          

Simbolizando..."tchi, tchi". Esta foi a maior surpresa! Quem estava ainda em fase de aquisição para simbolizar pegou uma caneta que virou uma arma, gritou mãos ao alto e a "caveira "  se rendeu ao imaginário.

"Não se mexa!"

E ainda tem mais...pela motivação da criança e empolgação da terapeuta teve até representação.

As costelas
Desenhando o esqueleto, quer dizer, "a caveira"

Poderia escrever aqui inúmeras coisas sobre sinais e sintomas, diagnósticos, mas isso não é o principal dessa história. Creio que o menino aprendeu e a terapeuta também. Ambos estavam envolvidos e atentos em um mesmo lugar.
Lugar de brincar!  


sexta-feira, 2 de maio de 2014

Alimentos sensoriais - sistema tátil

 Caixa de arroz colorido - muito a sentir, mexer, perceber, brincar e criar!

Por Ana Elizabeth Prado
Crefito 3/1670 TO

Um mar de sensações e ideias

Este é um dos materiais mais simples e de múltipla utilidade na clínica e na educação.
Para qualquer idade, gênero e inúmeros propósitos.

Eis alguns deles:

-só em colocar as mãos ou os pés na caixa cheia de arroz já estimula noções do corpo, sensação e percepção. A partir do movimento é também uma forma de estimular a propriocepção.
Dependendo do objetivo e idade pode ser estimulado a discriminação da  percepção corporal e de objetos. E o melhor, regulando o tônus.

-tenho usado também com adultos na Eutonia. Proporciona outra referência indo além da experiência tátil. Experimente e se deleite.
Certa vez uma criança comentou que a sua mão ficava mais macia.



-para crianças com hipersensibilidade tátil - por ser colorido e de toque suave torna-se convidativo para brincadeiras de colocar as mãos, os pés, sentir os dedos mexendo na superfície e profundidade. Ampliando o repertório de sensações táteis.

-na brincadeira de achar os objetos escondidos no fundo da caixa sem o auxilio da visão a criança vai refinando o aparato sensório-motor e perceptivo. O que é preciso fazer com as mãos para encontrar o objeto? E como manipular o objeto na mão para reconhecê-lo? Parece fácil mas requer maturidade neurológica.



-podemos fazer desenhos e escrita usando pouco arroz no recipiente, com os pés e mãos.




-o arroz pode passar a ser um mar ou rio para pescaria. Usar o imaginário para ações de coordenação motora, planejamento motor, coordenação viso motora podendo ser combinado ao equilíbrio nas diferentes posturas e planos. Na terapia de Integração Sensorial podemos combinar o uso de balanço suspenso que se transforma em barco.




Pela vivência sei que para cada um toca de um jeito, e é tocado. O bom é escutar como cada pessoa entra em contato com este material e qual o efeito que se propaga, desde o mais físico até o imaginário.

E então, se você já experimentou este material qual a sua brincadeira preferida?

Como fazer:
Usei 5 kg de arroz, 3 cores de anilina comestível e colori no arroz embebido com álcool, separadamente. Rápido, fácil e ainda fica mágico podendo ser feito com a criança. Depois de seco mistura tudo e coloca em um recipiente fundo.







quarta-feira, 30 de abril de 2014

Terapia ocupacional em crianças com TDAH

"...você é médica? vai me ajudar a parar o meu corpo?"
Por Ana Elizabeth Prado
Crefito 3/1670
Nada melhor do que escutar quem entende do assunto: a própria criança. Ela nos dá a dica do que não anda bem em sua vida.
Este é o questionamento de um menino de 5 anos de idade iniciando um programa de terapia ocupacional na abordagem de Integração Sensorial. Diante dos materiais disponíveis na sala Marcos* escolheu brincar de se pendurar no trapézio e cair em um colchão inflável na contagem "1,2, 3 e já", gritando a "palavra de guerra" escolhida por ele.
Combinamos previamente e planejamos como seria a brincadeira.
Para isso acontecer foi necessário a minha mediação para Marcos poder selecionar os materiais, sustentar a atenção aos passos da construção da brincadeira, bem como lembrar sobre o cuidado com sua segurança. Só durante a ação descobriu que precisava subir em algo como um puff para alcançar o trapézio. Que era necessário uma certa distância entre o puff e o colchão para conseguir acertar o pulo no alvo. E que precisava se manter por um tempo se pendurando pelas mãos percebendo o tempo da contagem até se soltar e cair. Percebeu ainda que era difícil falar a palavra enquanto pulava, preferindo só pular.
Fiquem atentos a todas necessidades para a participação de Marcos na brincadeira.
Depois propus para ele registrar a brincadeira por um desenho mas não foi possível para ele, por enquanto.
No meio da brincadeira me chamou atenção a elaboração de sua pergunta:
M- " isto faz parar meu corpo?"
Eu- " você está falando sobre o que?"
M- " ...essa brincadeira...você é médica? vai me ajudar a parar o meu corpo?"...e conversamos sobre o que estava lhe angustiando e o motivo de ele vir a terapia ocupacional.
Marcos apresenta excelente nível intelectual e veio indicado pela escola devido a quedas frequentes e dificuldades de atenção.
A aparente simplicidade desta brincadeira requer muitas habilidades, dentre elas: domínio do próprio corpo, e do corpo no ambiente; evocar uma intenção e formular uma ideia, implícita a motivação; ativar a memória; dirigir, focar e sustentar a atenção; planejar, selecionar os materiais e estratégias para se chegar ao objetivo; inibir uma ação para priorizar a principal; habilidade para iniciar, prosseguir e finalizar ações sequenciais de modo integrado do seu corpo com o meio.
Muitas destas habilidades são difíceis em crianças com sinais sugestivos de Disfunção de Processamento Sensorial, presente em algumas crianças com diagnóstico de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).
Trouxe este comentário para ilustrar o quanto algumas crianças desde tão jovens passam por momentos em que se vêem não correspondendo a si próprio ou aos pais, professores e amigos devido às alterações no modo como recebem, modulam ou processam as informações sensoriais.
Muitas famílias trazem como queixa as quedas frequentes, inquietação, "preguiça", falta de atenção, atraso na aprendizagem da leitura e escrita, preferências por brincadeiras muito infantis e falta de organização nas atividades de auto cuidado, às vezes com prejuízo na interação social.
Este assunto envolve vários aspectos emocionais, cognitivos e sensoriais. É difícil até para as famílias escolher o tratamento mais adequado principalmente quando é necessário uma equipe multidisciplinar.
Acredito que podemos começar escutando as necessidades da criança e das pessoas que se relacionam com ela, e a partir daí ir em busca de diagnóstico e intervenção terapêutica. Em crianças com TDAH, a depender do caso, é necessário entrar com medicação por indicação médica como auxílio, mas não esquecendo de valorizar o apoio à criança no sentido de favorecer uma qualidade melhor de relação dela no meio em que vive, seja na escola, em casa ou no meio social.
Neste último entra o papel do terapeuta ocupacional criando um ambiente com oportunidades onde a criança irá vivenciar o seu corpo no campo sensório motor, elencando brincadeiras junto à criança para integrar corpo, atenção e memória, organizando no tempo e espaço.
Do concreto ao abstrato.
Do real ao imaginário.
É a cognição ligada a vivência corporal. Essencial para as funções executivas.
É do corpo que se começa e que constrói  a história...

Integrando os sentidos do próprio corpo no contexto lúdico

  

Quer saber mais? Leia também


Marcos - nome fictício