sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Uma experiência de Arte, Terapia Ocupacional e Integração Sensorial

Por Ana Elizabeth Prado
Crefito 3/1670 TO

Na descoberta da integração dos sentidos a arte valida a passagem do corpo para o mundo.

Criado por L. 7 anos

Luan* chegou a mim para a intervenção de Integração Sensorial. Era um menino franzino, inteligente e com queixas da escola de dispersão e inabilidade motora.  A família não sabia como lidar com o seu comportamento "irreverente" e com o modo diferente de se comunicar. Estas queixas me levaram a entender esses sinais como indicativos de problemas de processamento sensorial.

Construímos juntos um programa onde Luan foi descobrindo seu corpo, as sensações da interação dele com o mundo e vivenciando novos caminhos de possibilidades. Regulando o corpo no tempo e espaço...integrando sensação, movimento, emoção e cognição.


Pendurando nos cipós do Tarzan, girando, pulando, brincando de sustentar seu corpo parado e em movimento, inventando brincadeiras, planejando e vivendo a conversa da imaginação com a realidade, própria do universo infantil.

Aos poucos Luan foi ficando auto confiante dando passagem para as etapas de seu desenvolvimento. Entre as atividades do programa de Integração Sensorial abrimos espaço para as auto expressivas como modelagem, colagem e pintura. Prosseguimos então a explorar os sentidos por outras formas, junto à coordenação motora, a elaboração das emoções, a atenção e por que não a arte.

Luan revelou sua habilidade em criar e um maravilhoso potencial estético. Talvez o lugar de estruturação que conseguimos chegar possibilitou a Luan se ver de outras maneiras  que não aquelas de menino "estabanado e desatento". Mas sim, brincalhão e criativo. 

A felicidade tomou conta de Luan. E ele foi embora para o mundo... deixando a sua presença em meu caminho de terapeuta ocupacional.

*Luan é nome fictício.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Afinal, o que a Terapia Ocupacional faz?


Por Ana Elizabeth Prado
Crefito 3/160 TO

A configuração em rede do nosso potencial de ser vivo se faz naturalmente quando não há impeditivos... 

Terapia Ocupacional - tecendo a vida

Mas, se houver, nós ajudamos a refazer a rede contando pelo que se é e o que virá a ser!



Há um tempo atrás fui convidada para escrever sobre Terapia Ocupacional e os benefícios na qualidade de vida às pessoas com Doença de Crohn.

Aproveito a oportunidade e coloco a minha visão de como a "TO" é tão global e está inserida na vida das pessoas. Será este o motivo que tanta gente não sabe o que a TO faz? Realmente é difícil colocar os benefícios numa caixinha, pois quando a gente tenta sempre há algo mais.

O diagnóstico é uma parte de uma história enorme que envolve passado, presente e futuro com diversas pessoas e infinitas possibilidades de prosseguir a vida!

Portanto, faça o exercício de descondicionar a técnica ao diagnóstico, a tentação de olhar só a relação direta da causa a um efeito. Existem muitos caminhos a se fazer, a serem reaproveitados e por que não, criados!

Segue o link do que escrevi no site Sincrohnia

Conheça os benefícios da terapia ocupacional na Doença de Crohn

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Disfunção de Processamento Sensorial no Transtorno do Espectro do Autismo - TEA

Ana Elizabeth Prado
Crefito 3/1670 TO

"Não há como escapar à fome da alegria!"

Ao ler o poema da Adélia Prado, " A menina e a fruta", esta frase ficou reverberando em mim. Não só como ensinamento de vida, mas principalmente  pela compreensão que atribuo ao comportamento de algumas crianças com quem convivo em meu dia-a-dia como terapeuta ocupacional.

A imagem-sensação foi se construindo pela lembrança cúmplice do corre-corre  sem destino e direção de algumas crianças, de seus gritos, choros ou o riso mal compreendido. Até mesmo o não poder olhar de frente para o outro, tipo olho-no-olho,  o balançar incessantemente das mãos ou o bater repetidamente em seu corpo e nos objetos. Aparentemente, atitudes sem função.

Todo comportamento tem um significado

O que fazemos quando não estamos no estado de equilíbrio ou fora de sintonia ? 


Do ponto de vista da teoria de Integração Sensorial há crianças com dificuldades em processar as várias informações sensoriais que acontecem o tempo todo no ambiente e em seu corpo. E uma parcela com Transtorno do Espectro Autista.

É comum adotarem comportamentos não reconhecidos socialmente devido a diversos motivos, tais como:

- necessidade de se proteger da sobrecarga de estímulos sensoriais. Pentear o cabelo ou alimentar-se pode se tornar uma situação aversiva.
- procura demasiada pelos estímulos  sensoriais para validar a percepção das informações.      Balançar-se pode alimentar a sensação do próprio corpo.
- inabilidade para integrar mais de uma informação sensorial. Olhar para o outro enquanto fala requer a habilidade de integrar várias informações.
- dificuldade no planejamento motor. A organização do corpo no tempo e espaço começa pelo ensaio do domínio corporal, que, no mínimo, é sensório-motor.
- dificuldade de organizar-se quando muda rotina ou o ambiente. Morder-se, bater e gritar pode ser uma forma de expressar a inabilidade de entender as mudanças do tempo e espaço.
-dificuldade em brincar e comunicar-se. O  desenvolvimento natural destas habilidades depende da autorregulação neurológica para incorporar a dimensão social.

A Terapia de Integração Sensorial começa pelo entendimento das necessidades e desejos da criança.
Compreendendo a causa pode se criar condições para aprender a lidar com a realidade em que vive.
Nesta abordagem terapêutica não queremos "consertar" nenhum comportamento. Queremos chegar a um ponto que tais comportamentos sejam minimizados em prol da ampliação de horizontes.
Que tais atitudes não sejam mais o foco, mas sim, o desenvolvimento das habilidades.
Criamos um ambiente onde a criança possa descobrir novos jeitos de relação com seu próprio corpo e o meio com brincadeiras sensoriais que, aos poucos, ajudam a maturidade neurológica. Durante o programa a criança irá conhecendo sobre ela, do que gosta, e do que é possível, inclusive transpondo para além da terapia. A família também passa a conhecer os recursos em que a criança pode usar na escola e em casa para melhorar o estado de presença nos diversos meios em que convive.



Retomando a frase da Adélia Prado eu diria que alguns comportamentos podem refletir a fome ou a falta de algo, e que, às vezes, podem ser as condições mínimas para brincar e comunicar... como a alegria!

Propiciar essas condições me faz ter a certeza que este tipo de terapia não é para condicionar, mas sim para descondicionar um padrão que foi estabelecido devido a alguma dificuldade.
Acreditando que o caminho é pela, para e a partir da própria criança.
Quer saber mais? Acesse outras postagens no blog

Segue abaixo o link referente a mais um estudo relacionando as dificuldades de pessoas com autismo na área de processamento sensorial. Alguns comportamentos sociais diferentes surgem daí.
Por isso é necessário uma avaliação de um terapeuta ocupacional especializado em Integração Sensorial para compor um programa adequado para cada criança.

Link do "Reab me" sobre o estudo das alterações no processamento sensorial no autismo

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Brincadeiras para simbolização. Materiais inusitados. Por que não?

"Mãos ao alto!"
Por Ana Elizabeth Prado
Crefito 3/1670 TO
Quando o imaginário da criança é ativado um arco-íris se faz!

Há momentos na vida da gente que vibramos lá dentro, e bem fora também... um brinde às escolhas!
Escolha em ser terapeuta, na confiança do vínculo, na abertura da criança ao novo... e nas incertezas do acaso do encontro... na brincadeira.
Um bom motivo para ser terapeuta ocupacional!!!

Havia ali um esqueleto e pela fresta da porta aquele menino falou: "caveira" em uma forma que de início não dava para entender. Mas insistentemente como quem queria um doce de festa ele não desistiu. Eu que nem imaginava que na idade dele seria interessante entrei na brincadeira... e a "caveira" entrou na nossa brincadeira.

O início - inspeção por todos os buracos e partes. Coisas que nem sempre podemos fazer em um ser vivo.


O recheio - de que somos feitos? Minuciosamente interessante...ossinhos, ossos grandes

          

Simbolizando..."tchi, tchi". Esta foi a maior surpresa! Quem estava ainda em fase de aquisição para simbolizar pegou uma caneta que virou uma arma, gritou mãos ao alto e a "caveira "  se rendeu ao imaginário.

"Não se mexa!"

E ainda tem mais...pela motivação da criança e empolgação da terapeuta teve até representação.

As costelas
Desenhando o esqueleto, quer dizer, "a caveira"

Poderia escrever aqui inúmeras coisas sobre sinais e sintomas, diagnósticos, mas isso não é o principal dessa história. Creio que o menino aprendeu e a terapeuta também. Ambos estavam envolvidos e atentos em um mesmo lugar.
Lugar de brincar!  


sexta-feira, 2 de maio de 2014

Alimentos sensoriais - sistema tátil

 Caixa de arroz colorido - muito a sentir, mexer, perceber, brincar e criar!

Por Ana Elizabeth Prado
Crefito 3/1670 TO

Um mar de sensações e ideias

Este é um dos materiais mais simples e de múltipla utilidade na clínica e na educação.
Para qualquer idade, gênero e inúmeros propósitos.

Eis alguns deles:

-só em colocar as mãos ou os pés na caixa cheia de arroz já estimula noções do corpo, sensação e percepção. A partir do movimento é também uma forma de estimular a propriocepção.
Dependendo do objetivo e idade pode ser estimulado a discriminação da  percepção corporal e de objetos. E o melhor, regulando o tônus.

-tenho usado também com adultos na Eutonia. Proporciona outra referência indo além da experiência tátil. Experimente e se deleite.
Certa vez uma criança comentou que a sua mão ficava mais macia.



-para crianças com hipersensibilidade tátil - por ser colorido e de toque suave torna-se convidativo para brincadeiras de colocar as mãos, os pés, sentir os dedos mexendo na superfície e profundidade. Ampliando o repertório de sensações táteis.

-na brincadeira de achar os objetos escondidos no fundo da caixa sem o auxilio da visão a criança vai refinando o aparato sensório-motor e perceptivo. O que é preciso fazer com as mãos para encontrar o objeto? E como manipular o objeto na mão para reconhecê-lo? Parece fácil mas requer maturidade neurológica.



-podemos fazer desenhos e escrita usando pouco arroz no recipiente, com os pés e mãos.




-o arroz pode passar a ser um mar ou rio para pescaria. Usar o imaginário para ações de coordenação motora, planejamento motor, coordenação viso motora podendo ser combinado ao equilíbrio nas diferentes posturas e planos. Na terapia de Integração Sensorial podemos combinar o uso de balanço suspenso que se transforma em barco.




Pela vivência sei que para cada um toca de um jeito, e é tocado. O bom é escutar como cada pessoa entra em contato com este material e qual o efeito que se propaga, desde o mais físico até o imaginário.

E então, se você já experimentou este material qual a sua brincadeira preferida?

Como fazer:
Usei 5 kg de arroz, 3 cores de anilina comestível e colori no arroz embebido com álcool, separadamente. Rápido, fácil e ainda fica mágico podendo ser feito com a criança. Depois de seco mistura tudo e coloca em um recipiente fundo.







quarta-feira, 30 de abril de 2014

Terapia ocupacional em crianças com TDAH

"...você é médica? vai me ajudar a parar o meu corpo?"
Por Ana Elizabeth Prado
Crefito 3/1670
Nada melhor do que escutar quem entende do assunto: a própria criança. Ela nos dá a dica do que não anda bem em sua vida.
Este é o questionamento de um menino de 5 anos de idade iniciando um programa de terapia ocupacional na abordagem de Integração Sensorial. Diante dos materiais disponíveis na sala Marcos* escolheu brincar de se pendurar no trapézio e cair em um colchão inflável na contagem "1,2, 3 e já", gritando a "palavra de guerra" escolhida por ele.
Combinamos previamente e planejamos como seria a brincadeira.
Para isso acontecer foi necessário a minha mediação para Marcos poder selecionar os materiais, sustentar a atenção aos passos da construção da brincadeira, bem como lembrar sobre o cuidado com sua segurança. Só durante a ação descobriu que precisava subir em algo como um puff para alcançar o trapézio. Que era necessário uma certa distância entre o puff e o colchão para conseguir acertar o pulo no alvo. E que precisava se manter por um tempo se pendurando pelas mãos percebendo o tempo da contagem até se soltar e cair. Percebeu ainda que era difícil falar a palavra enquanto pulava, preferindo só pular.
Fiquem atentos a todas necessidades para a participação de Marcos na brincadeira.
Depois propus para ele registrar a brincadeira por um desenho mas não foi possível para ele, por enquanto.
No meio da brincadeira me chamou atenção a elaboração de sua pergunta:
M- " isto faz parar meu corpo?"
Eu- " você está falando sobre o que?"
M- " ...essa brincadeira...você é médica? vai me ajudar a parar o meu corpo?"...e conversamos sobre o que estava lhe angustiando e o motivo de ele vir a terapia ocupacional.
Marcos apresenta excelente nível intelectual e veio indicado pela escola devido a quedas frequentes e dificuldades de atenção.
A aparente simplicidade desta brincadeira requer muitas habilidades, dentre elas: domínio do próprio corpo, e do corpo no ambiente; evocar uma intenção e formular uma ideia, implícita a motivação; ativar a memória; dirigir, focar e sustentar a atenção; planejar, selecionar os materiais e estratégias para se chegar ao objetivo; inibir uma ação para priorizar a principal; habilidade para iniciar, prosseguir e finalizar ações sequenciais de modo integrado do seu corpo com o meio.
Muitas destas habilidades são difíceis em crianças com sinais sugestivos de Disfunção de Processamento Sensorial, presente em algumas crianças com diagnóstico de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).
Trouxe este comentário para ilustrar o quanto algumas crianças desde tão jovens passam por momentos em que se vêem não correspondendo a si próprio ou aos pais, professores e amigos devido às alterações no modo como recebem, modulam ou processam as informações sensoriais.
Muitas famílias trazem como queixa as quedas frequentes, inquietação, "preguiça", falta de atenção, atraso na aprendizagem da leitura e escrita, preferências por brincadeiras muito infantis e falta de organização nas atividades de auto cuidado, às vezes com prejuízo na interação social.
Este assunto envolve vários aspectos emocionais, cognitivos e sensoriais. É difícil até para as famílias escolher o tratamento mais adequado principalmente quando é necessário uma equipe multidisciplinar.
Acredito que podemos começar escutando as necessidades da criança e das pessoas que se relacionam com ela, e a partir daí ir em busca de diagnóstico e intervenção terapêutica. Em crianças com TDAH, a depender do caso, é necessário entrar com medicação por indicação médica como auxílio, mas não esquecendo de valorizar o apoio à criança no sentido de favorecer uma qualidade melhor de relação dela no meio em que vive, seja na escola, em casa ou no meio social.
Neste último entra o papel do terapeuta ocupacional criando um ambiente com oportunidades onde a criança irá vivenciar o seu corpo no campo sensório motor, elencando brincadeiras junto à criança para integrar corpo, atenção e memória, organizando no tempo e espaço.
Do concreto ao abstrato.
Do real ao imaginário.
É a cognição ligada a vivência corporal. Essencial para as funções executivas.
É do corpo que se começa e que constrói  a história...

Integrando os sentidos do próprio corpo no contexto lúdico

  

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Marcos - nome fictício